
Jogo de Cena chega ao DVD (Videofilmes) com extras imperdíveis. As pré-entrevistas com as personagens “reais”, feitas por Cristina Grumbach, são quase tão atraentes quanto o próprio filme. Nelas, várias mulheres respondem a uma pergunta fundamental: por que se dispuseram a atender a um anúncio para contar histórias de vida num filme. Marina, por exemplo, conta que se deixou atrair pela aparente contradição de participar de um doc (“coisa real”) sendo ela uma atriz iniciante.
Outro extra repõe a conversa de Coutinho com Maria Nilza, a única “real” que não entrou no filme, ficando apenas representada (magistralmente) pela atriz Débora Almeida.
A faixa comentada é um misto de entrevista e debate, denso e ininterrupto, onde eu apenas cumpro o papel de mediador, com esparsas contribuições analíticas. O verbo corre mesmo é por conta de Eduardo Coutinho, diretor, e João Moreira Salles, produtor, que relembram e discutem a gênese do projeto, as estratégias de produção, escolha de elenco e personagens etc. Coutinho explica que, no anúncio em que convocava mulheres para contar histórias, usou a palavra “documentário” para que ninguém pensasse em filme pornô, tráfico de escravas brancas, essas coisas.
Assisti a vários debates com as presenças de Coutinho e João em torno de Jogo de Cena, mas em nenhum presenciei interação tão viva entre os dois, nem tantas manifestações de amor pelo filme. Talvez pelo estúdio fechado onde se gravam essas conversas, o ambiente propicia uma maior intimidade, perceptível pelo consumidor do DVD. João chega a interromper digressões para enaltecer um determinado corte ou o momento especial de uma atriz. Esta é uma faixa comentada que de fato amplia a compreensão do filme, além de ser ocasionalmente muito divertida.
Mas para quem nunca viu Jogo de Cena, é fundamental assistir ao filme primeiramente sem o comentário. A revelação da identidade de algumas atrizes pouco conhecidas pode funcionar como spoiler. Embora tanto Coutinho como João minimizem o caráter de charada do filme, aí reside boa parte do prazer que não deve ser negado ao espectador. De resto, rever essas mulheres na restrição do espaço doméstico confere uma dimensão quase nova a suas histórias e às emoções que legitimamente afloram tanto no relato autêntico como na performance.
Fonte: Blog do O Globo
Por Carlos Alberto MAttos
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